Como Bagé celebra os 209 anos: lideranças apontam rumos para o futuro

por Yuri Cougo Dias

O cenário global passa por uma situação que não era vivida desde a Gripe Espanhola, no final da segunda década do século XX. Com restrições rígidas de isolamento social, para que não haja disseminação do vírus, as celebrações, sejam elas de aniversários, eventos culturais ou religiosos, praticamente deixaram de ocorrer. Os encontros passaram a ser na frente da câmera de um computador ou celular. E ninguém consegue apontar, pelo menos com certeza, uma data concreta de quando a sociedade poderá se relacionar em sua forma integral.
Entretanto, os feitos registrados no passado não deixaram de existir. Afinal, tudo que vivenciamos e a posição em que nos encontramos, no campo social, é uma consequência desse passado. E mesmo que tenhamos que recorrer, diariamente, ao uso de álcool gel e máscaras de proteção, o tempo permanece com a mesma velocidade. Sim, já foram seis meses completados. Em breve, 2021 abrirá suas portas. E como estaremos quando chegar? Ou seja, embora todas as restrições, não podemos deixar de olhar para o futuro.
Por isso que, em tese, a impressão seja de que não há razões para comemorar não passa de um engano. São justamente nesses períodos de crise que o ser humano e sociedade se reinventam e se adaptam a um novo sistema. E é com essa linha de pensamento que lideranças, instituições e repartições públicas de Bagé apontam o cenário que envolve esse marco de 209 anos completados.
Seguindo essa linha de raciocínio, o Jornal MINUANO apurou de que forma o poder público municipal trabalhou às comemorações dos 209 anos da Rainha da Fronteira. E, ainda, estabeleceu uma análise de lideranças locais, sobre quais são os rumos a serem seguidos, por Bagé, para o próximo ano – de preferência, sem pandemia.


Homenagem à Edy Lima e virtualização dos eventos


Em tempos de normalidade, a Prefeitura, em parceria com diversos setores da sociedade, costuma elaborar uma série de eventos alusivos ao aniversário da cidade. Geralmente, integram a já conhecida “Semana de Bagé”. A programação abrange fóruns de discussões; shows em praças públicas; apresentações nos espaços culturais e escolas; exposições artísticas, dentre outras atividades que tenham como foco assinalar o aniversário da Rainha Fronteira.
Naturalmente, para 2020, as comemorações tiveram que adaptar-se à realidade da pandemia no cotidiano da população. Responsável pela Secretaria de Cultura e Turismo (Secult), Anacarla Oliveira detalha que grande parte da programação da Semana de Bagé concentrou-se em eventos realizados no formato virtual, em sua maioria, por meio de lives nas redes sociais.
A exceção envolveu quatro eventos que, especificamente, foram planejados para ocorrerem presencialmente. “Programamos uma mostra de arte no Palacete Pedro Osório; uma performance musical no Imba; performance de dança no Palacete e o Cine-Drive, em parceria com o Sesc. Passamos por um momento muito difícil de pandemia. Porém, a Secult acha muito importante não deixar de esquecer de valorizar nossa cultura, nossa história”, contextualiza. E por falar no Cine-Drive, no dia da exibição, programado para este domingo (19), a Secult confirma que exibirá, antes do filme, um curta-metragem de 10 minutos com a homenageada da Semana de Bagé, a escritora Edy Lima.
Para quem não sabe, a escritora bajeense é responsável de uma série de obras infantis. Entre elas, o clássico “A Vaca Voadora”. Aos 96 anos, ela reside em São Paulo, porém, é cria da Rainha da Fronteira, onde passou 17 anos de sua longeva vida. Neste ano, foi a personagem escolhida pelo município para ser alvo de homenagens. “Ela conta com mais de 50 obras publicadas e ganhou vários prêmios. Produziu discos infantis e peças de teatro. Sempre procuramos valorizar, também, o patrimônio imaterial, de artistas que são de Bagé e que possuem expressão nacional e internacional. Ano passado foi Danúbio Gonçalves; no retrasado, os Quatro de Bagé na arte”, explica Anacarla.
E dentro do planejamento para o ambiente virtual, a secretária ressalta que todas as casas e repartições relacionadas a Secult estarão com programação própria. Em especial, destaca o projeto Olhares sobre Bagé, que consiste na divulgação de vídeos, com depoimentos de bajeenses que moram fora.  “Foi a forma que achamos para não deixar a cultura e o turismo parados. Mesmo nesse momento difícil, precisamos valorizar nosso potencial cultural e histórico. Mesmo em tempo de covid-19 no mundo inteiro, Bagé ainda conserva sua saúde e tem buscado todos os cuidados, via iniciativa pública, para que haja a mínima disseminação do vírus”, enfatiza.

Escolas visitam prédios no ambiente on-line

Quem também costuma marcar presença constante nas comemorações do aniversário de Bagé são as escolas da rede municipal. Meses antes, os professores já começam a trabalhar, dentro da sala de aula, assuntos e curiosidades com relação à Rainha da Fronteira. Neste ano, o método precisou ser modificado, de modo que o trabalho não fosse cancelado, mas que atende todas as exigências sanitárias.
De acordo com a supervisora de Artes e Ensino Religioso da Secretaria Municipal de Educação e Formação Profissional (Smed), Rosiane Dalmagro, desde a abertura do ano letivo, o principal projeto das escolas era realizar, durante a Semana de Bagé, um passeio em prédios históricos da cidade. O projeto chama-se “Bagé: conhecer para pertencer” e foi desenvolvido no Ensino Fundamental, com os Anos Finais (6º ao 9º).
Obviamente, com a pandemia, a visitação tornou-se inviável. Mesmo assim, a ideia foi mantida, contudo, numa nova dinâmica. “São 25 escolas que oferecem Anos Finais. Então, escolhemos 25 prédios e distribuímos um para cada escola, que desenvolveu seu trabalho, seja por pesquisa, produção de texto, fotografia, desenho ou pintura. A escola trabalhou com o aluno a distância, com as aulas remotas que estão acontecendo. Baseado no material que estudaram, produziram trabalhos que serão (foram) postados nas redes sociais de cada escola, durante a Semana de Bagé”, salienta Rosiane.
As únicas exceções foram com as escolas São Pedro e João Severiano da Fonseca. Por terem o status de cívico-militares, ambas ficaram designadas de fazer o mesmo trabalho, só que com as organizações militares de Bagé.
Esta foi a solução que a Smed encontrou para que os alunos celebrassem a data e fizessem uma reflexão do patrimônio existente na Rainha da Fronteira. “Queremos continuar com esse projeto. Quanto mais os alunos tiverem conhecimento da importância desses prédios históricos, mais vão se sentir como parte disso. Logo, irão aprender a amá-los, cuidá-los e respeitá-los”, frisa.


“A mudança passa pela Educação”, aponta reitora da Urcamp

É evidente que o desenvolvimento econômico, social e cultural de uma cidade tem relação direta com o papel desempenhado por universidades em seus campos sociais. E Bagé é um exemplo prático desse contexto, pois, foi a partir da criação da Fundação Universidade de Bagé (FUB) – hoje, Urcamp -, no dia 13 de janeiro de 1969, que a Rainha da Fronteira passou a qualificar profissionais que, anos depois, fizeram a diferença para a evolução da cidade, nos mais variados segmentos econômicos.
Fruto de iniciativa protagonizada pela Fundação Attila Taborda (FAT), os cursos superiores passaram ser realidade no município, o que veio a ser estruturado como as Faculdades Unidas de Bagé (FUnBa). Contextualizando um pouco mais a parte histórica, a transformação em universidade foi oficializada em 16 de fevereiro de 1989.
Passadas mais de três décadas desse acontecimento, a Urcamp foi responsável pela formação de vários profissionais, que contribuíram tanto para a economia local quanto para o desenvolvimento de senso crítico e a busca por uma sociedade melhor. E esse processo de estar engajado com a cidade se justifica ainda mais com o modelo atual de ensino, da Graduação I, que oportuniza, aos alunos, resolverem demandas da própria comunidade, o que evidencia ainda mais a importância do Ensino Superior para desenvolvimento de uma cidade.
Então, se a Urcamp tem tido, nas últimas décadas, parcela significativa no desenvolvimento de Bagé, é justamente num período de pandemia (leia-se crise) que é responsável por direcionar os rumos a serem tomados por uma sociedade. É nesse sentido que a reitora da Urcamp, Lia Quintana, tece sua linha de raciocínio. “Toda a população vem passando por um grande aprendizado. E a mudança e cultura de proteção, de esclarecimento, deve passar pela educação”, aponta.
Assim como os setores, a pandemia fez com que empresas e instituições adaptassem suas rotinas diárias para que permanecessem ativos. Evidentemente, o processo gerou dificuldades, mas, também, oportunizou novos modelos de trabalho, conforme atesta Lia. “Todos tiveram que se adaptar. As aulas foram virtualizadas para que pudéssemos cumprir o conteúdo. E tem muitas situações que servirão como aprendizado; algumas delas até se solucionaram com a pandemia. No nosso caso, nas reuniões de trabalho, temos diversos campus a atender. Agora, as reuniões podem ser feitas no mesmo horário, com todo mundo junto, mediante os aplicativos de reuniões virtuais”, afirma.
Dessa forma, a reitora argumenta que, embora às dificuldades enfrentadas nesse período, há um legado e aspectos positivos que poderão ser aproveitados no mundo pós-pandemia. “São recursos que permanecerão sendo utilizados, não somente pelas instituições, mas por todas as empresas e seus gestores”, finaliza.

"A Bagé que amamos sairá mais unida, com um grande rumo para o futuro", avalia Divaldo

Independente de questão político-partidária, a pandemia obrigou com que diversas bandeiras e setores da sociedade se unissem contra um único problema. Ao menos, adversários deram uma trégua em seus confrontos. E nesse trabalho de enfrentamento ao coronavírus, Bagé foi um dos primeiros municípios a adotar o distanciamento social. Somente 15 dias depois, o Governo do Estado publicou um decreto. 
Passados quatro meses da abertura do distanciamento social, a Rainha da Fronteira permanece na luta contra esse inimigo invisível. E é justamente esse trabalho que Divaldo considera como fato a ser exaltado na comemoração de aniversário. "São 209 anos de um município em que a sua história representa parte da história do Rio Grande do Sul. Isso através de feitos e realizações de homens e mulheres que, das diversas formas, foram protagonistas de Bagé, tão reconhecida dentro do território gaúcho e nacional", salienta.
Na concepção do chefe do Executivo, a Rainha da Fronteira tem plenas condições de enfrentar essa crise. Ele também acredita no progresso e evolução da sociedade, quando essa pandemia sair da vida de todos. "Ser bajeense é motivo de orgulho para todos nós. Sermos bajeenses, de uma cidade tão tradicional, que é um exemplo, atualmente, no Estado e no Brasil, por estarmos vencendo o coronavírus. Por estarmos vencendo uma doença que vem ceifando mais de de 70 mil vidas no Brasil inteiro. Isso faz com que mantenhamos viva nossa força, nossa garra, para seguirmos lutando, característica esta, junto da solidariedade, é a maior de todos os bajeenses. Enxergo que a Bagé que amamos sairá mais unida, com um grande rumo para o futuro e o progresso que nos aguarda. Essa a Bagé pós-pandemia que enxergo", conclui.

“Somos uma região de fronteira e precisamos estar de portas abertas”, destaca bispo

Em épocas de isolamento social, a preocupação não é direcionada apenas ao fator econômico. A caridade e o estado mental das pessoas também são temas considerados primordiais para que se possa vencer uma crise desse cunho. E, portanto, valorizar a terra-natal torna-se de suma importância para que esse argumento seja colocado em prática, segundo o bispo Dom Cleonir Dalbosco. “Celebrar o aniversário da cidade é o mesmo que celebrar o aniversário de nosso pai e nossa mãe. É a cidade que nos acolhe e que nos dá possibilidade de nos desenvolvermos. Por isso, é importante celebrarmos a vida, a história de um povo que, nas mais diversas formas, luta para sobreviver, cuidar de sua família. São mais de 200 anos de batalhas vencidas, com grande empenho e amor pela terra”, pontua.
Outro ponto destacado pelo bispo é o forte acolhimento de Bagé com pessoas que vêm de fora. “O povo é fraterno, acolhe os migrantes. Eu também sou migrante dessa terra e sinto-me bem acolhido. Mesmo nesse tempo de pandemia, é um povo que cultiva valores de solidariedade, de preocupação com os outros. Esperamos que, após esse momento, todos nós possamos sair melhores do que entramos na pandemia. Que possamos olhar a vida com mais amor e dar mais valor a própria vida”, manifesta.
Justamente pelo fato de Bagé completar 209 anos, com diversas histórias e realizações, a expectativa do bispo é de que os bajeenses tratem a pandemia como um período destinado à evolução. “Precisamos rever muitos conceitos e atitudes. A solidariedade e o amor ao próximo devem acontecer de forma natural. Que nossa consciência esteja ciente que, diante de Deus, ninguém é maior. Somos todos iguais. E que Bagé siga acolhedora. Somos uma região de fronteira e precisamos estar de portas abertas”, conclui.